Senhor Presidente da APS,

Minhas Senhoras e Meus Senhores,

É um grande prazer estar hoje convosco para refletirmos sobre um tema particularmente atual: a forma como a geopolítica está a transformar a economia — e, em particular, o papel do sector segurador neste novo contexto.

Vivemos uma fase de transição profunda. Tensões geopolíticas, fragmentação económica, eventos climáticos extremos e rápidas mudanças tecnológicas estão a redefinir os riscos que enfrentamos enquanto sociedades e economias. E quando o risco muda, o setor segurador está inevitavelmente no centro da resposta.

Hoje, gerir o risco já não significa apenas reagir ao inesperado. Significa antecipar, adaptar e construir resiliência num mundo mais incerto.

A crescente interdependência entre política, economia e segurança alterou profundamente o ambiente em que operam empresas, investidores e seguradoras.

As cadeias de valor tornaram-se mais voláteis. O comércio internacional pode ser instrumentalizado. E fenómenos climáticos extremos — cada vez mais frequentes — têm impactos humanos e económicos diretos.

Neste contexto, a previsibilidade e a estabilidade tornam-se ativos estratégicos.

É aqui que o sector segurador desempenha um papel essencial: não apenas como gestor de risco, mas como facilitador de confiança. Sem mecanismos eficazes de partilha e mitigação de risco, a economia torna-se mais cautelosa, o investimento abranda e a inovação perde dinamismo.

Mas a realidade é que existe ainda um “protection gap” significativo — uma diferença entre os riscos enfrentados pela sociedade e os riscos efetivamente cobertos por seguros. Este desfasamento é particularmente visível nos riscos climáticos e catastróficos. Os números relativos à efetiva cobertura de seguros em Portugal, sejam particulares ou empresas, mais uma vez destacados na comunicação social nas últimas semanas, mostram o muito que ainda há por fazer.

Os acontecimentos recentes em Portugal — como a tempestade Kristin e as fortes chuvas que infelizmente causaram perdas humanas e materiais — recordam-nos que o impacto destes fenómenos não é abstrato. É real, é humano e exige respostas concretas.

Nestes momentos, o papel das seguradoras torna-se evidente: apoiar famílias e empresas, acelerar a recuperação económica e reforçar a resiliência coletiva. Numa Europa cada vez mais exposta a riscos climáticos, geopolíticos e tecnológicos, reduzir este gap de proteção não é apenas uma prioridade económica — é também uma responsabilidade social e estratégica.

Para além da gestão do risco, as seguradoras são também um dos maiores investidores institucionais da Europa.

Gerem poupanças de longo prazo e têm um horizonte temporal único — um ativo fundamental numa economia que precisa de financiamento estável para investir na transição energética, na inovação tecnológica e nas infraestruturas estratégicas.

Em face dos desafios com que estamos confrontados, este papel ganha ainda maior relevância.

Foi também com este objetivo que avançámos com alterações ao ato delegado da Solvência II, tornando as regras mais proporcionais, mais eficientes e mais alinhadas com o papel das seguradoras como investidores de longo prazo.

Ao ajustar o enquadramento prudencial de forma equilibrada, procurámos libertar capacidade de investimento, preservando ao mesmo tempo a robustez e a estabilidade financeira que caracterizam o sector na Europa.

Com esta decisão sinalizámos que há espaço para uma maior participação do sector segurador enquanto fonte de capital “paciente”, seja no capital de empresas estabelecidas, seja em capital de risco — sempre sem comprometer a proteção dos tomadores de seguros. Incumbimos o supervisor Europeu – a EIOPA – de monitorizar e reportar anualmente como está a ser aplicada a capacidade acrescida de investimento. Estou confiante que o sector segurador contribuirá de forma ainda mais relevante para as prioridades europeias.

Porque numa Europa que precisa de investir mais, não podemos ter capital de longo prazo imobilizado por interpretações excessivamente conservadoras do risco. Precisamos de um enquadramento que reconheça plenamente que o sector segurador não é apenas um mitigador de risco — é também um motor de investimento, inovação e crescimento económico europeu.

É precisamente este o espírito da União da Poupança e dos Investimentos: criar um sistema financeiro mais integrado, capaz de transformar a poupança europeia em crescimento económico e oportunidades reais.

Uma das dimensões centrais desta agenda é o reforço das pensões complementares.

Sabemos que os sistemas públicos continuarão a ser a base da proteção social. Mas também sabemos que, num contexto demográfico desafiante, precisamos de diversificar fontes de rendimento na reforma.

O pacote europeu sobre pensões que apresentámos em novembro  último procura aumentar a participação dos cidadãos, melhorar a eficiência dos produtos e criar incentivos adequados para poupança de longo prazo.

Neste processo, o sector segurador tem um papel central. As seguradoras são, por natureza, especialistas em planeamento financeiro de longo prazo e em gestão prudente do risco.

A revitalização do Produto Individual de Reforma Pan-Europeu — o PEPP — pretende torná-lo mais simples, mais flexível e verdadeiramente europeu. Num tempo em que as carreiras são cada vez menos lineares e mais transfronteiriças, instrumentos como o PEPP podem tornar-se uma peça essencial para garantir continuidade, previsibilidade e segurança financeira aos cidadãos europeus.

Mais poupança para a reforma significa também mais capital disponível para financiar a economia europeia — criando um círculo virtuoso entre segurança financeira individual e crescimento económico.

Num mundo mais volátil, a estabilidade do enquadramento regulatório torna-se ainda mais importante.

As empresas precisam de previsibilidade para investir. Os investidores precisam de regras claras e proporcionais. E o sector segurador precisa de um quadro que reconheça a sua natureza de longo prazo e a sua capacidade única de absorver risco.

A estabilidade regulatória é hoje, mais do que nunca, um instrumento de competitividade europeia — porque num mundo em transformação acelerada, a confiança nas regras é tão valiosa quanto o capital que financia a economia.

Minhas Senhoras e Meus Senhores,

A geoeconomia veio lembrar-nos que a estabilidade económica não pode ser desligada da realidade geopolítica.

Num contexto de imprevisibilidade, o sector segurador não é apenas um observador — é um protagonista. Um gestor de risco, um investidor estratégico e um parceiro essencial na construção de uma economia mais resiliente.

Reduzir o “protection gap”, mobilizar poupança de longo prazo e garantir segurança são desafios comuns — e também oportunidades.

Se a Europa quiser afirmar-se como uma economia forte num mundo mais fragmentado, precisará de um sector segurador dinâmico, inovador e capaz de investir com confiança no longo prazo.

Ao alinhar políticas públicas com a experiência e a capacidade do sector segurador, estaremos a dar um passo decisivo para reforçar a competitividade europeia, proteger os cidadãos e construir um futuro melhor.

Muito obrigada.